quarta-feira, 1 de abril de 2009

“Com que Corpo eu vou?”

Treino de monografia: Análise que fiz de dois textos da Maria Rita Kehl “Visibilidade e Espetáculo” e “Com que Corpo eu vou?”. Fiquei fascinada pelo segundo título, por isso o copiei. Mas diga-se de passagem que todos os créditos são de Kehl, que por sinal eu Recomendo!

O que escrever em uma análise? Antes de me dedicar a escrever, conduzindo uma análise de dois textos referentes a uma forma de ver o mundo e encarar os fatos, devo fazer notável a profunda admiração à escrita da dona dessa maneira de encarar o mundo e apreciar os fatos. Digo isso, por que não se tratar de uma simples observação do real ou uma crítica a programas que tentam, através do sensacionalismo, reproduzir a realidade (distorcida, claro). A autora se faz profunda e consistente conhecedora dos elementos que regem os comportamentos sociais, bem como matérias de história, política, psicanálise, e além de tudo, uma capacidade fascinante de articulação de idéias, interiorização de memórias no texto e linguagem clara e objetiva. Com tudo isso, torna-se difícil reescrever ou dizer alguma coisa que já foi tão bem dita.

Os textos lidos trazem questões referentes à vivência do ser humano na sociedade pós-moderna, que a autora chama de ‘sociedade do espetáculo’. Tal sociedade é marcada, não mais pelas regras ditadas pela burguesia de outrora, mas pela a inversão destes ideais (‘ideais pelo avesso’) agregados a novas formas de expressão, identificação e atuação no mundo.

Percebe-se que os ‘sobreviventes da nave’ chamada de ‘vida em uma sociedade do espetáculo’ estão, não confinados em uma super casa com todos os aparatos para uma boa vida de descanso, festas e testes de resistência, mas estão a todo instante convivendo com a real realidade (não é uma redundância). Aliás, a única coisa que se pode ver em comum, são as provas de resistência. Quem está aqui pelo lado de fora precisa, realmente, de muita força, habilidade, jogo de cintura, e determinação para aprender a lidar com os ideais, que a todo tempo lhe são impostos.

Esses ideais dos quais me refiro são os famosos mesmo: ideal de beleza, perfeição, pessoas sem problemas, 100% equilibradas, pessoas independentes que não precisam de ninguém para se auto-resolverem, pessoas muito confiantes de si que jamais passam por crises de identidade. Essas jamais precisam parar para pensar em quem são, o que fazem e dizem. Elas são elas e o resto é perda de tempo. Será que são pessoas mesmo? Pura ilusão de identidade.
Ironicamente, os que ficam presos ao gozo fálico são os alvos mais fáceis da espetacular sociedade, onde o corpo é a passarela onde sambam grifes, operações plásticas, dietas irracionais, hormônios, anabolizantes, consumismo desenfreado. Sociedade do espetáculo cuja cultura é o narcisismo.

A busca por ocupar aquele lugar de perfeição idealizado pelo Outro (Outro-sociedade, Outro-moda, Outro-televisão, Outro-magreza, Outro-outros), que diga-se de passagem, ninguém jamais poderá ocupar tal simbolismo, está transformando pessoas capazes de oferecer um discurso em odres vazios de identificação. Ou seja, as ações que poderiam levar uma pessoa a constituir significância em uma sociedade estão sendo massificadas, destituídas de particularidades, interesses e discursos, fatos que o fariam diferenciar do todo. Segundo Kehl, “a massa produz o efeito de uma imagem o mais vazia possível a fim de propiciar o maior número de identificações” (p.154). O sujeito é de todos e não é de ninguém, fica oculto no processo.
Essa imagem do corpo próprio que deve ser o mais parecido possível com o corpo Outro, de preferência sem história, sem sofrimento e sem falhas, atendendo ao Eu-Ideal, serve de suporte para a construção de uma ilusão de identidade para os sujeitos da sociedade do espetáculo. Ele supõe que é o que o Outro espera que ele seja. Constrói uma experiência de si alheia ao que considera como domínio subjetivo do eu.

Diante da frustração desesperada da suposição dita acima e o entupimento de todas as ‘veias’ de expressão o sintoma só acha uma saída diante de toda pressão e idealização de perfeição: o corpo. Sim, o próprio corpo paga o preço, através dos sintomas psicossomáticos, pela recusa da dimensão inconsciente, dos sentimentos não expressos (ou erroneamente expressos) e da intenção de perfeição.

Os novos sintomas como os transtornos alimentares, compulsões por exercícios físicos, exageradas e irracionais intervenções cirúrgicas de modelagem do corpo, sexualidade compulsiva, a exigência da ação, o terror da passividade, transtornos de ansiedade, doenças cardiovasculares, palpitações, cefaléias frequentes, cansaço crônico, crises de asma, desordens gastrointestinais ou úlceras, dores cervicais, insônia, hipertensão, alergias, alterações hormonais e outros são a expressão psíquica diante do mal-estar contemporâneo.

Portanto, vê-se que a produção de um sistema fechado, rígido em seu conceito de belo, e claustrofóbico, como diz Kehl, acarretará na construção de vidas fixadas diante do espelho e desprovidas de sentido que, provavelmente, serão encaminhadas para a clínica da psicopatologia do corpo na vida cotidiana.

Um comentário:

  1. uau! adorei esse texto! tu foste muito mais além da compreensão do que Kehl escreveu, tu imprimiste teu estilo, teu olhar-sensível e não deixou de científico. ParabénsMichelle

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