sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Histeria é fashion!

Estava eu absorta em minhas eternas pesquisas e leituras de artigos-base para minha monografia quando me deparei com este que apresentarei abaixo. Na verdade é um trecho do livro "Histerias" (Silvia Leonor Alonso e Mário Pablo Fuks) resenhado por Marcelo Volich (um dos meus favoritos do tema em questão). Ele faz uma introdução (fantástica!) e depois começa a resenha.
Espero que apreciem a leitura.

"Por que voltar a essas terras?
Talvez seja essa a primeira questão que surge ao contemplarmos a histeria no aparentemente cada vez mais diversificado, colorido e atualizado catálogo de viagens da psicopatologia contemporânea. Por que visitar novamente o Hospital da Salpêtrière, em Paris, com suas tão conhecidas galerias de fotos e esculturas vivas de mulheres retorcidas? Interessa assistir mais uma vez, à noite, os embates entre Charcot e Janet em torno daqueles sintomas incompreensíveis? Fazer uma rápida parada em Nancy para matar as saudades do bom vinho da Alsácia e do velho Bernheim com suas experiências sobre o hipnotismo e a sugestão? De novo rumar apressados para Viena a tempo de presenciar o experiente, mas intimidado Breuer, e o jovem e ainda tímido Freud engendrarem a psicanálise através de seu polêmico, e então escandaloso Estudos sobre a histeria? Ainda são capazes de nos interessar Elisabeth von N., Dora, “a Bela Açougueira”, Anna O., com suas paralisias, mutismos, anestesias e tosses, tão pueris comparados à moderna exuberância das top models, ao espetáculo da body art e a tantos outros fenômenos da cultura do corpo da atualidade? Por que novamente retirar das prateleiras manuscritos de mais de cem anos, que se referem a uma neurologia que nem mais existe, que tratam de temas como a masturbação, o coito e hábitos sexuais, na época escandalosos, mas que atualmente todos os dias adentram nossas salas de visita sem enrubescer nem mesmo os mais jovens freqüentadores de jardins de infância?

Por que não escolher destinos mais da moda, atuais como os TOCs (transtornos obsessivos compulsivos), transtornos de pânico e alimentares, as hiperatividades e as depressões? Por que não preferir pacotes mais modernos, muito procurados e generosamente financiados pela indústria farmacêutica que promete condições de visita especialmente confortáveis e sem inconvenientes? Por que retornar aos conhecidos roteiros da histeria já tão visitados, descritos, dissecados, mas que teimam em permanecer pouco hospitaleiros e incômodos?

A histeria é fashion

Talvez bastasse observar os outdoors em uma rápida volta no quarteirão, contemplar os passantes no shopping, apreciar as modas e visualizar as produções culturais, nos jornais, revistas e TVs, para perceber que a histeria é mais do que nunca atual. A profusão de produtos, corpos, imagens e sonhos permanentemente oferecidos ao consumo, revela como podem ser amplamente exploradas as insatisfações da alma humana. Insatisfações alimentadas e promovidas pela combinação explosiva de condições de vida materiais e/ou anímicas precárias e a incessante produção de ideais, fantasias e promessas que se oferecem como miragens de ansiadas satisfações plenas e definitivas, da perfeição fálica e da completude narcísica.

“Gozo para todos”, parece ser o lema, quase o imperativo, de uma ideologia que hoje oferece em negativo o mesmo terreno fértil que gestou e colocou em evidência a histeria a partir da segunda metade do século XIX. Desde essa época, em íntima consonância com as mudanças cada vez mais intensas da organização econômica e social, transformaram-se também as manifestações histéricas repercutindo sobre as formas de subjetivação e de manifestação social. Nesse contexto, mudou também a função do sintoma, o apelo que ele lança como instrumento inconsciente de poder e de intermediação de uma solidão sem continência para estímulos e excitações cada vez mais intensos, fascinantes, mas também insuportáveis e desorganizadores.

Nada mais característico da organização histérica do que o circuito infernal de promessas e frustrações, de ilusão e desencanto que, apesar de todo sofrimento que provoca e de toda repetição que o desmascara, mantém o sujeito escravo do desejo do Outro, seja ele personificado por seu semelhante, por uma instituição, por um Estado. Tentar aliar-se ou moldar-se aos supostamente “vitoriosos”, identificar-se e reproduzir essa dinâmica é, muitas vezes, uma forma extrema de tentar evitar o contato insuportável, ou mesmo o reconhecimento da experiência da falta.

Mas ainda nesse lugar revela-se o engodo. Cada conquista, cada vitória rapidamente deixa de ser satisfatória. Na impossibilidade de satisfação do desejo e de reconhecimento da satisfação, mesmo quando ela acontece, encontramos uma das marcas registradas da histeria. Insatisfação que tem a mãe como destinatária, considerada na fantasia a responsável pela falta e pela castração, suspeita de possuir, prometer e sonegar objetos e relações idealizados que poderiam propiciar a plena satisfação do sujeito.

Dessa forma, somos permanentemente confrontados em nossos dias a uma verdadeira clínica do ressentimento. O sofrimento, a frustração, as dificuldades contidas nas queixas dos pacientes são permeadas e intensificadas pelas sucessivas decepções com promessas amorosas, profissionais, políticas, reais ou imaginadas, impossíveis de serem cumpridas. Desencantos que não tardam a respingar sobre o próprio processo terapêutico, freqüentemente atacado quando não entra em conluio com as expectativas de curas mirabolantes, rápidas, idealizadas. Cedo ou tarde, também o médico, o psicoterapeuta, o profissional e a instituição de saúde são confrontados a promessas que jamais fizeram e a expectativas que não podem cumprir. Cedo ou tarde, se desvanecem mesmo as intensas esperanças inicialmente depositadas no processo terapêutico pelo paciente, inaugurando muitas vezes o circuito de violentos embates que leva à ruptura desse processo e à busca de um novo tratamento onde novamente possam ser depositadas aquelas esperanças não correspondidas.
Compreendemos então que os desafios, dificuldades e riscos dessa clínica se estendem para muito além da organização histérica. Na diversidade de suas expressões sintomáticas e combinações com diferentes organizações psicopatológicas, é fundamental compreender que é no espaço da relação com o outro, familiar, colega, terapeuta que se desenvolve a trama histérica, que sempre demanda um coadjuvante para sua mise-en-scène. A compreensão e a elaboração dessas relações é um dos principais recursos para desarmar as constantes armadilhas e rupturas que ocorrem na convivência e no tratamento dessas pessoas".

Nenhum comentário:

Postar um comentário