quinta-feira, 29 de abril de 2010

Vamos banhar na chuva?

 Hoje a chuva veio de uma direção que ela não costuma vim. Antes dela, o vento. Gélido, forte, inebriando os meus sentidos, tirando toda minha concentração. Me fazendo ficar atenta ao tocar na minha pele. Aos poucos, rápidos e fortes pingos d'água invadiram meu quarto, molhando os livros abertos. E eu fiquei ali, paralisada por aquela sensação. Os clarões iluminam o quarto me acordando do ligeiro devaneio. Fecha as janelas, diz ele. Vou desligar a chave geral, os relâmpagos estão muito forte, complementa. O último trecho que consegui ler foi

"O sonho é a realização (dissimulada) de um desejo (reprimido, recalcado)" 1900a, p.145 [196].

As luzes se apagaram, fiquei imóvel por um instante. Podia ouvir a chuva na janela e o vento sacudindo as árvores do quintal ao lado. Estendi a rede na varanda e no momento em que abri a porta que estava deixando a chuva lá fora, ela invade fazendo as rendas da rede dançarem no ritmo do vento.
Deitei e fiquei quieta, esperando a brisa vir com chuva até mim. Aquela dor de cabeça ia passar... talvez... se eu fechasse os olhos... e pensasse em outro lugar... mais distante... mais calmo... mais sereno.... ali eu iria respirar.

Imaginei estar deitada na varanda de uma casa simples de campo. A chuva também caía lá fora e me envolvia com um vento frio. Além de mim, um jardim enorme de puro verde e com a imagem dele um som... distante, mas familiar. Eu estava nos jardins de Jane Austen. Quis me embrulhar, mas de repente vi um balanço. Antes que eu pudesse pensar de novo lá estava ela, uma menina, correndo até o balanço. Só então senti, sou eu a criança. Não entendo... mas porque?

Balançando, balançando, alto, cada vez mais alto. Podia sentir o vento comprimindo as minhas bochechas...
....

Acordei sem lembrar do que sonhara. Os clarões iluminaram o dançar singelo do vento com a rede. Lembrei onde estava e da pergunta que ele fizera antes que eu adormecesse: "Vamos banhar na chuva?". O vento vinha diferente do que costuma vim. Era uma ventania de outono.

Sentirei saudade, mesmo do que ainda está por vir....

[Ao som Liz on top on the world - Dario Marianelli]

3 comentários:

  1. perfeito. muito lindo esse texto! vc ta de parabens!
    e respondendo a sua pergunta: sim com todo o prazer.

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  2. Muito bom o blog

    Aristóteles

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  3. quando era pequena adorava tomar banho de chuva. Hoje me deixo embalar apenas pelo som dela caindo lá fora...
    me dá um soooonooo!
    Ahh lembrei de uma coisa com o título do texto: quando vim morar em são luís achei muito estranho porque aqui fala "banhar"! Eu nunca tinha ouvido falar nisso heheheh eu falo "tomar banho".. é engraçado como cada lugar tem seu jeitinho próprio!

    Não sabia que você também tinha blog, bem legal!
    beijos Maiara =*****

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