quarta-feira, 27 de abril de 2011

"Viver no duelo dos contrários"



“Nunca deixei de estar submetido à pressão simultânea de duas idéias contrárias e que me parecem ambas verdadeiras, o que me leva ora a ir de uma a outra, segunda as condições que acentuam ou diminuem a força de atração de cada uma, ora a aceitar como complementares essas duas verdades que, no entanto, deveriam logicamente se excluir uma à outra. Tenho ao mesmo tempo, o sentimento da irredutibilidade da contradição e o sentimento da complementaridade dos contrários. É uma singularidade...". (grifo meu)

Edgar Morin, Meus Demônios, Bertrand Brasil, 1997.



ps. ai que saudade do mundo dos blogs.

sábado, 2 de abril de 2011

É preciso ultrapassar fronteiras...

... e uma dessas fronteiras é a comodidade.

Psicóloga brasileira conta como é o trabalho de MSF na fronteira da Tunísia com a LíbiaDébora Noal


A brasileira Débora Noal está na fronteira da Tunísia com a Líbia coordenando uma equipe de sete psicólogas e cinco assistentes de Médicos Sem Fronteiras (MSF). Em entrevista por telefone, ela contou como é o trabalho da organização na região, na área de saúde mental. Mais de 4,5 mil pessoas já foram atendidas pela equipe. A grande maioria é formada por homens que imigraram de Bangladesh, Sudão, Mali, Somália, Nigéria, Costa do Marfim, Burkina Faso, e outros países, para trabalhar na Líbia - legal ou ilegalmente - e que agora fogem dos conflitos.


Por que MSF decidiu começar um programa de saúde mental na Tunísia?


Débora Noal - Nossa equipe chegou aqui no dia 23 de fevereiro e desde então tem sido impedida de cruzar a fronteira. Do lado da Tunísia, as pessoas que conseguem cruzar as fronteira estão recebendo cuidados médicos em estruturas organizadas pelo governo da Tunísia e outros governos e por organizações internacionais. Mas percebemos que havia uma lacuna em atendimento de saúde mental. E essa é uma das principais demandas das pessoas que estão chegando ao país. Poucas apresentam ferimentos físicos. Mas várias estão mental e emocionalmente afetadas pelo conflito e pelo que já vivenciavam antes do conflito iniciar.

Quem são essas pessoas que chegam a cruzar as fronteiras e o que elas contam?

Débora - A maioria é homem. Dos 4.552 casos que atendemos até hoje, em atendimentos individuais ou em grupo, 4.462 são homens adultos. Eles vêm de todas as partes. Bangladesh, Sudão, Mali, Somália, Nigéria, Costa do Marfim, Burkina Faso. Muitos estavam na Líbia trabalhando. Alguns estavam presos por serem imigrantes sem documentos transitando pela Líbia. Muitos já haviam sofrido vários tipos de violência e o conflito só veio agravar a situação. A maioria conta que se desloca durante a noite e é nesses momentos que sofrem ou testemunham violência – tanto física como psicológica.

Que tipos de sintomas eles apresentam?

Débora - Há muitas pessoas que correm o risco de desenvolver um quadro de estresse pós traumático (PTSD, na sigla em inglês) – mas ainda é cedo para saber, pois o PTSD só é diagnosticado após três meses de um evento desencadeador. Há pessoas que já apresentam um caso de psicose diretamente relacionada aos recentes confrontos.

Como é feito o atendimento?

Débora - Nós temos duas tendas na fronteira, uma no norte e outra no sul, além de uma equipe no campo de Shoucha, onde as pessoas aguardam repatriação ou reinstalação. Hoje há 4 mil pessoas no campo, mas esse número flutua muito. Tanto nas tendas da fronteira quanto no campo, o primeiro atendimento é feito em grupo. Nós explicamos quem somos e começamos a falar sobre as reações e sintomas que são comuns entre pessoas que se refugiam durante um conflito armado. Depois nós fazemos a escuta: é o momento que eles têm para se expressar, dizer o que estão sentindo, o que sofreram. Nós fazemos então uma orientação sobre o que cada um pode fazer para atenuar as reações quando não houver um psicólogo por perto e como eles podem apoiar os companheiros, pois essa vai ser a realidade deles. No final, nos colocamos à disposição para o atendimento individual, para aqueles que quiserem conversar mais para seguir um cuidado individual.

Como é a equipe?

Débora - Nós temos sete psicólogos e cinco assistentes psicossociais. Eles são pessoas das diferentes nacionalidades que estão cruzando a fronteira, que contratamos para poder fazer esse atendimento na língua das pessoas, com uma maior facilidade de inserção na cultura e oferecendo um conforto para elas se expressarem. O desafio é que há uma alta rotatividade, porque á medida que eles são repatriados e deixam a Tunísia, nós temos que contratar e treinar novos assistentes.

Que tipo de orientação ela inclui?

Débora - Cada grupo tem uma necessidade diferente. A situação de uma pessoa da Somália ou da Costa do Marfim, em cujos países há um conflito, é normalmente diferente de uma pessoa do Mali ou de Burkina Faso, que sabem que vão ser repatriados para o seu país em poucos dias. Os Somalis e Marfineses estão ficando nos campos por mais tempo, não sabem para onde vão depois da Tunísia, então em geral enfrentam uma situação de incerteza que agrava o quadro psicológico. Nós precisamos prepará-los para lidar com essa incerteza. Uma orientação comum é, por exemplo, para eles tentem manter algum elemento de rotina, mesmo com as mudanças, para que não percam todas as referências. Outra é compartilhar o máximo possível as informações sobre a ajuda disponível no ambiente.

Quais são as perspectivas para a equipe de MSF hoje na Tunísia?

Débora - Nós continuamos tentando cruzar a fronteira para chegar à Líbia pelo lado Oeste. Ao mesmo tempo, estamos preparados para, a qualquer momento, lidar com um grande fluxo de feridos – pois até agora, vimos poucas pessoas feridas cruzando as fronteiras com a Tunísia.