terça-feira, 23 de agosto de 2011

'Há ainda os que compram afeto': sobre o consumo compulsivo.


Essa semana, uma matéria da UOL sobre o comprar compulsivo me chamou muito a atenção. Nunca tinha atentado para a classificação desse transtorno e suas implicações. Fiz uma pequena revisão bibliográfica e disponibilizo parte da matéria também.
Sabe-se que o comprar compulsivo ou oniomania (e não oneomania como diz a reportagem) é um transtorno classificado no Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM-IV) na categoria "Transtornos do controle de impulsos não especificados", sendo caracterizado pela incapacidade de resistir a um impulso, tendência ou tentação para realizar um ato potencialmente nocivo ao indivíduo ou a terceiros (a matéria difere da classificação do DSM-IV, pois o categoriza como transtorno obsessivo-compulsivo, mas em pesquisas realizadas identifiquei que ainda há discussões sobre essa questão).
É um transtorno freqüentemente associado a complicações psicológicas, interpessoais, financeiras e legais, cuja prevalência oscila entre 1,8 e 16% da população norte-americana adultaA despeito de diversas modalidades de psicoterapia terem sido descritas como alternativas terapêuticas, antidepressivos inibidores da recaptação de serotonina podem ser utilizados no tratamento do consumo compulsivo (TONELLI et al., 2008).

Inevitavelmente, eu não poderia deixar de associar o transtorno a uma personagem que faz bastante sucesso e é muito lembrada quando se trata de consumismo: Becky Bloom. A personagem se encaixa perfeitamente no diagnóstico e podemos perceber, por exemplo, sua auto-estima e relacionamentos interpessoais influenciando em sua decisão de compra.

Segue a matéria: 

Nunca foi tão fácil conseguir crédito no mercado. O resultado disso é que o brasileiro está se endividando cada vez mais. Cerca de 63% das famílias estão devendo e comprometem pelo menos 30% do salário com dívidas. Este é o resultado de uma pesquisa de endividamento e inadimplência do consumidor, realizada em abril pela Confederação Nacional do Comércio (CNC). De acordo com o estudo, 8% não têm condições de quitar o saldo devedor, chegando a demorar em média 58,8 dias para pagar.


"Há várias razões que levam uma pessoa a se endividar: desde as estritamente necessárias, ligadas à sobrevivência, até para exibir um status que não tem, para aliviar a ansiedade ou mesmo ocupar o tempo", diz a psicóloga Olga Tessari, autora do livro "Dirija Sua Vida Sem Medo" (Ed. Letras Jurídicas). Comprar indiscriminadamente, a ponto de se tornar um devedor por muito tempo e sem conseguir parar, é considerado uma doença obsessivo-compulsiva chamada oneomania, que atinge principalmente as mulheres. Não se sabe ao certo o porquê, mas acredita-se que sejam fatores culturais.

"O superendividamento é uma consequência da compra compulsiva. É uma característica de cada indivíduo que se apoia no externo para fortalecer a sua imagem. Pode, ainda, estar ligado à baixa autoestima e por não saber lidar com emoções negativas ou não souber dizer não a quem pede empréstimo", avalia a psicóloga Tatiana Filomensky, coordenadora do atendimento de compradores compulsivos do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP.

Patologias associadas

Geralmente, o comprador compulsivo tem, também, algum outro transtorno - como de humor, ansiedade, alimentar - ou dependência de substâncias químicas (como drogas, medicamentos ou álcool). "Comprar é gostoso. E eles vão em busca da sensação de prazer. Os problemas se acumulam e os prejuízos passam do financeiro para o familiar e social. Brigas em casa são constantes", diz Tatiana Filomensky.

Embora percebam que o endividamento está prejudicando a sua vida, para aliviar a ansiedade, essas pessoas compram cada vez mais. Mas não conseguem aplacar o sentimento e voltam a ter comportamento compulsivo. "É um círculo vicioso que traz cada vez mais sofrimento. Para resolver o problema, é preciso entender os fatores que geram a elevação da ansiedade, aprender a lidar com eles e superá-los", afirma Olga Tessari.

Note a diferença

Gostar de comprar não é o mesmo que ser um comprador compulsivo. "Uma pessoa que se endivida uma vez sofre tanto que vai fugir ao máximo de novas prestações, por medo do sofrimento vivido. Já o compulsivo quer aliviar a compulsão comprando cada vez mais, na busca pelo prazer, sem pensar no futuro", define Olga Tessari. "Uma das minhas pacientes comprou a terceira torradeira, pois não podia perder uma oferta maravilhosa. Quando indaguei por que, ela respondeu: ‘não resisti, foi mais forte do que eu’", conta. Tatiana Filomensky já atendeu pacientes com os mais diversos tipos de problema.

Gente que perdeu o apartamento, o carro, uma poupança de R$ 100 mil.Para se livrar da compulsão, não há outro remédio senão fazer um tratamento psicológico e, em alguns casos, psiquiátrico. "Primeiro é preciso reconhecer que tem a patologia e parar de mentir. Precisa de avaliação médica correta e adequada, para acabar com os sintomas, e da psicológica, para entender por que que comprar virou um problema. Analisar as emoções envolvidas e as situações em que gasta. É preciso entender como lidar bem com o dinheiro”, diz Tatiana Filomensky.

Perfil dos devedores

De acordo com Gilson Luís da Silva, um dos coordenadores do grupo Devedores Anônimos, de São Paulo, 70% dos frequentadores das reuniões semanais são compradores compulsivos. “É o perfil mais comum. Compram para acumular objetos, para saciar a ansiedade. Adquirem coisas para si", diz.

Há ainda os que compram afeto, sustentando os outros, pagando rodadas de bebidas, se endividando para ajudar. "As pessoas usam de má fé e pedem dinheiro emprestado, sempre se baseando em alguma história de carência. E os endividados não sabem dizer não". Mas há, também, quem contrai dívidas porque não sabe contabilizar os gastos e administrar o salário do mês – e mesmo cheios de contas para pagar, continuam gastando mais do que ganham.

Para ter acesso à matéria completa, aos depoimentos e fazer um teste proposto por psicólogos do ambulatório dos Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria do HC da USP, clica aqui

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